Tradução e comentários: Sonia von Homrich
O desenvolvimento spiritual do Ser Humano. GA 84. III A faculdade
de cognição do Ser Humano no Mundo Etérico. Dornach. 22 Abr 2023.
Três palestras dadas por Rudolf Steiner em Dornach, 20, 21,
22 de Abril de 1923. Palestras 4, 5, 6 do ciclo de 11 palestras intituladas "O Desafio para o Goetheanum e para a Antroposofia". (Em alemão: Was Wollte das Goetheanum und Was Soll
Die Anthroposophie?)
1.
A Vivência Interior da Atividade do Pensar. 20/Abr/1923
2.
O Mundo Físico e o Impulso Moral-Espiritual.
21/Abr/1923
3. A faculdade de Cognição do Ser Humano no Mundo Etérico. 22/Abr/1923
Three lectures given by Rudolf Steiner at Dornach, 20th, 21st, and 22nd of April, 1923. They are lectures four, five, and six of eleven lectures in the series entitled, A Challenge for the Goetheanum and for Anthroposophy. Published in German as, Was Wollte das Goetheanum und Was Soll Die Anthroposophie?
- The Inner Experience of the Activity of
Thinking April 20 1923
- The Physical World and the Moral-Spiritual
Impulse April 21, 2023
- Man’s faculty of Cognition in the Etheric World April 22, 1923
https://rsarchive.org/Lectures/GA084/English/LZ0290/SpiDev_index.html
Nos últimos dias, tenho falado sobre o lugar do homem no
Universo. Por um lado, concebemos a organização do homem como composta por
corpo físico, corpo etérico ou corpo de forças formativas, corpo astral (alma) e
o verdadeiro "Eu" (Espírito) que transita de vida terrena para vida
terrena. Ao mesmo tempo, também tentei mostrar como cada um desses membros do
ser humano está conectado de maneira diferente com o Universo. Pode-se dizer
que o corpo físico está conectado com tudo o que é físico, o mundo terreno dos
sentidos; o corpo físico do homem faz parte desse mundo. Mas quando pensamos no
corpo etérico ou no corpo de forças formativas, devemos compreender que este
pertence a um tipo de mundo bastante diferente, aquele mundo que é ele próprio
- etérico e do qual lhes disse que o homem deveria experimentá-lo como advindo
dos espaços distantes do cosmos. Se, então, imaginarmos as forças da Terra se
espalhando em todas as direções e o homem vivendo dentro dessas forças, que são
as do mundo físico, devemos conceber o mundo etérico como vindo de todos os
lados e direções, da camada global externa do universo para encontrar as forças
físicas que fluem para fora, e assim alcançar o homem. É óbvio, portanto, que o
corpo etérico do homem está sujeito a leis inteiramente diferentes daquelas que
governam o corpo físico. — E novamente, ao contemplar o corpo astral/alma do
homem, percebemos que ele está conectado com mundos que não são encontrados de
forma alguma naquele cosmos que está contido no físico e no etérico, e no qual
descobrimos que, com nosso corpo astral, pertencemos ao mundo no qual entramos
entre a morte e um novo nascimento.
E finalmente, com o próprio ‘Eu’/Espírito, pertencemos a um
mundo que flui como de uma fonte vivificante através de mundos que, considerando
por exemplo, o nosso próprio mundo, são de caráter tríplice. Os três membros do
nosso mundo são o físico, o etérico e o astral. O mundo do ‘Eu’ atravessa este
mundo e outros mundos tripartides (3 partes) semelhantes. É, portanto, um mundo
muito mais abrangente, que devemos considerar eterno em comparação com o
temporal.
Mas também devemos levar em conta o fato de que, sempre que empregamos as faculdades humanas de percepção e compreensão que nos informam sobre o corpo etérico ou o corpo das forças formativas, o corpo astral e o ‘Eu’, na verdade entramos em mundos completamente diferentes. Temos que mudar para a esfera do pensamento ativo-vivo para experimentar nosso corpo etérico. O que então devemos ter em mente é que, nesse mundo, tudo é diferente do que experimentamos enquanto estamos presos ao mundo físico dos sentidos. Em primeiro lugar, as coisas e os acontecimentos que conhecemos do ponto de vista do mundo físico aparecem sob uma luz bastante diferente nesses mundos superiores. Afinal, as coisas e os eventos encontrados no mundo físico são apenas manifestações finais. Eles têm sua origem nos mundos superiores; de modo que vemos mais sobre as origens primárias de nosso entorno no mundo físico. Mas, além disso, quando no mundo físico temos, para começar, o mundo bem conhecido pela consciência comum, onde o homem está rodeado pelos três reinos da natureza, além do seu próprio, quando nos elevamos às faculdades de cognição — em minhas Conferências usei a expressão "Cognição Imaginativa" — que nos permitem vivenciar nosso próprio corpo etérico ou o corpo das forças formativas, entramos no mundo etérico. E desenvolvemos e fortalecemos suficientemente nossas faculdades quando acendemos a luz interior e podemos nos vivenciar, por assim dizer, no Segundo Homem/ Ser-Humano, no corpo das forças formativas; então entramos no mundo que, pelo menos inicialmente, se revela a nós em imagens: o mundo dos Anjos, Arcanjos e Arqueus.
Tendo rompido, por assim dizer, para as esferas cósmicas
onde o corpo etérico, o corpo das forças formativas, se torna perceptível para
nós, reconhecemos, ao entrar neste mundo de imagens fluidas, que estas revelam
manifestações dos Seres da terceira Hierarquia, os Anjos, Arcanjos e Arqueus. Ali estamos entre Seres que não estão conosco
no mundo físico dos sentidos. A presença desses Seres se revela a nós por meio
de qualidades semelhantes em essência àquelas que percebemos também através de
nossos sentidos no mundo físico.
Mas aqui, no mundo dos sentidos, vemos, por exemplo, as
cores espalhadas sobre a superfície das coisas ou em configurações puramente
físicas, como o arco-íris. Os sons são experimentados como conectados a objetos
específicos no mundo físico. Da mesma forma, o calor e o frio são sentidos como
emanando de certos objetos no mundo físico dos sentidos. Mas quando observamos
o mundo no qual a terceira Hierarquia nos é revelada, não vemos cores aderindo
às coisas, sons reverberando dos objetos e assim por diante, mas sim cores,
sons, calor e frio, fluindo e vibrando —
dificilmente se pode dizer através do espaço — mas fluindo e vibrando no tempo.
A cor não se espalha sobre a superfície das coisas, mas flutua e se move em
ondas. E aplicando as faculdades que nos permitiram entrar nesses mundos
(Cognição Imaginativa), sabemos que, assim como no mundo físico o efeito da cor
sugere numa base material, também naquele mundo a nuvem flutuante de cor, um
organismo fluido de cor, é a manifestação do trabalho e da tecelagem das forças
do espírito e da alma da terceira Hierarquia. De modo que, no momento em que
contemplamos o quadro da vida do qual falei, que oferece uma imagem clara e
espontânea de toda a nossa vida desde o nascimento (Registro Akáshico), também
aparece dentro desse fluxo dos eventos de nossa própria vida algo do qual se
pode dizer: dentro do mundo desmaterializado de cores e sons fluidos vive a
terceira Hierarquia.
Quando nossas faculdades de cognição são fortes o suficiente
para atingir o nível no qual podemos observar nosso próprio corpo astral, isto
é, aquela parte de nós que existia antes de descermos à vida terrena e que
carregaremos conosco novamente quando passarmos pelo portal da morte, então
sabemos: este é um mundo mais amplo, um mundo que não encontramos no éter
cósmico, mas além dos portões do nascimento e da morte. Aqui entramos no mundo
astral mais amplo.
As coisas não coincidem exatamente com as descrições dadas
em meu livro, "Teosofia" (antes de chamar a Ciência Espiritual de
Antroposofia), onde são apresentadas de um ponto de vista diferente. Mas assim
como encontramos a terceira Hierarquia quando alcançamos a experiência de nosso
corpo de forças formativas, também encontramos a segunda Hierarquia, os
Exusiai, Kyriotetes e Dynamis, no mundo que nos revela nosso próprio corpo
astral. E esta segunda Hierarquia não se torna perceptível para nós em cores e
sons fluidos, mas se manifesta para nós anunciando e proclamando a importância
das revelações do Logos que ressoam e se entrelaçam pelo Universo. A segunda
Hierarquia fala conosco.
Se, depois de ter alcançado os poderes de cognição
necessários, alguém quiser dar alguma indicação de como se relaciona com esses
mundos, usando palavras que naturalmente não têm mais um significado aplicável
no mundo sensorial, mas que ainda são, em certa medida, expressivas em relação
aos mundos superiores, deve-se dizer: Para o mundo etérico, o pensamento-vivo
interior torna-se uma espécie de órgão do tato. Com o pensamento vivo, tocamos
este mundo de cores fluidas e assim por diante. Não devemos imaginar que vemos
o vermelho como o olho vê - o vermelho dos sentidos, espalhado na superfície
das coisas; em vez disso, sentimos, 'tocamos' o vermelho e o amarelo e assim
por diante; tocamos os sons, de modo que possamos dizer: no mundo etérico, o
pensamento-vivo é o elemento do toque em relação ao que vive no mundo da
terceira Hierarquia.
Ao entrarmos nesse mundo ao qual, em certo sentido, nosso
corpo astral pertence, não podemos falar de experimentar esse mundo astral
meramente através do elemento do toque, mas devemos dizer: apreendemos sobre este
mundo como a revelação dos Seres da segunda Hierarquia. Cada manifestação
separada se apresenta a nós como um membro, uma parte do Logos do Mundo. Do
profundo silêncio ressoa a voz dos Seres Espirituais. Assim, após o toque, a
fala, a comunicação.
Cada palavra nesta passagem deve ser levada com absoluta
seriedade, porque cada palavra é significativa. Toda essa experiência deve
culminar na percepção de que o verdadeiro "Eu", inicialmente
considerado algum ser estranho, é na verdade o próprio Eu; o qual surgiu parecendo
ser algum outro ser que viveu em um passado muito distante, mas que, na
verdade, é você mesmo.
E então se descobre como esse Eu fluiu da existência
anterior na Terra para a vida terrena presente, mas que agora, nesta vida, está
encoberto, por assim dizer, e só poderia emergir se tudo o que acontece entre o
adormecer e o despertar fosse revelado à alma. É aí que tudo aquilo que, em seu
caminho pelo mundo astral e etérico, nos alcançou desde nossa vida anterior na
Terra, continua a viver e a se entrelaçar.
É, veja bem, um mundo de contradições terrenas misturadas
com acordes de harmonias celestiais neste processo interior da alma em busca:
contradições terrenas na medida em que, por meios concebidos para atender às
necessidades da vida cotidiana comum na Terra, não se pode realmente alcançar o
próprio 'Eu' verdadeiro. Apenas os primeiros rudimentos do amor vivem em nosso
'Eu' terreno. E mesmo assim, um brilho é lançado sobre a vida na Terra através
do poder do amor que irradia para esta vida terrena. Mas esse amor precisa se
fortalecer. Deve adquirir força suficiente para permitir ao ser humano
contemplar o mundo etérico e o mundo astral através do poder do amor e, assim,
superar aquilo que nele reside como seu eu-inferior/ego, como egoísmo — o
oposto do amor — para obter domínio sobre aquilo que, como antítese do amor,
lhe permite experimentar a si mesmo na vida terrena como um "Eu"
independente. O amor deve crescer tanto que se aprenda a ignorar esse "Eu"
terreno, a esquecê-lo, a desconsiderá-lo. O amor é a identificação do próprio Eu
com o outro ser. Esse impulso deve ser tão forte que se deixe de dar atenção ao
próprio "Eu" enquanto ele reside no corpo terreno. Surge, então, a
contradição: é precisamente através da abnegação, através da mais elevada
capacidade de amar, que se avança em direção ao próprio "Eu"
verdadeiro, que acena enquanto irradia através dos ciclos do tempo.
É preciso perder o próprio "eu" terreno para
contemplar o verdadeiro "Eu". E aquele que não consegue realizar esse
ato de entrega simplesmente não tem meios de encontrar o verdadeiro "Eu".
Poderíamos dizer que o verdadeiro "Eu" não quer ser procurado sempre
que se deseja revelar sua presença. Se procurado, ele se esconde. Pois somente
no amor ele será encontrado, e o amor é uma entrega de si mesmo a outro ser.
Por essa razão, o verdadeiro Eu deve ser encontrado como se fosse um outro ser.
No momento de se deparar com o próprio verdadeiro "Eu",
também se toma consciência do que vive em um mundo mais amplo, no próprio mundo
espiritual. Aí encontram-se os seres da primeira Hierarquia: Serafins,
Querubins, Tronos.
E assim como ali se reencontra o próprio "Eu" — do qual se tem apenas um reflexo na vida terrena —, agora se encontra todo o mundo do ambiente terreno em sua verdadeira forma espiritual. Portanto, é preciso também perder este mundo terreno para encontrar o mundo de suas origens primordiais, juntamente com o verdadeiro ‘Eu’.
De modo que possamos dizer: O que se revela no mundo
espiritual é algo lembrado, é o toque, a fala, a memória; mas a lembrança de
algo que antes se conhecia apenas em reflexões, em imagens.
Assim, ao vivenciar o próprio eu humano e ao perceber a própria humanidade, entra-se na vida do Universo em sua totalidade. E para dar uma imagem clara dos vários membros do ser humano – o corpo físico, o corpo etérico, o corpo astral e o “Eu” –, cada um deve também ser mostrado em sua relação com os mundos correspondentes do Universo.
O que descrevi agora deve ser bem compreendido e levado em
consideração em seu pleno significado antes que qualquer abordagem ao problema
das quatro partes da natureza humana possa revelar seu verdadeiro significado.
Eis um exemplo que demonstra claramente que o ser humano não deve apenas
direcionar seus pensamentos para outros caminhos, mas pensar de maneira
diferente se quiser alcançar uma verdadeira compreensão do mundo espiritual.
Ele deve dar vida ao que são, na realidade, apenas imagens mortas na percepção
sensorial puramente física: sua atitude mental deve mudar.
E aqui podemos, de fato, encontrar alguns produtos
extraordinários da vida espiritual moderna, que mostram as dificuldades que
precisam ser superadas para que a Ciência Espiritual de Rudolf Steiner, a Antroposofia
penetre nas almas dos seres humanos.
Quando o livro "Ciência Oculta" foi publicado, um
renomado filósofo moderno decidiu analisá-lo.
Ciência Oculta, Editora Antroposófica https://www.antroposofica.com.br/listaprodutos.asp?idproduto=9013992 (Nota da trad)
E agora, observem como o pensamento crítico do renomado
filósofo foi formulado. — Levando em conta o que encontrou na “Ciência Oculta”:
assim como se olha para uma cadeira, disse a si mesmo: uma cadeira também pode
ser dividida em suas partes — pernas, assento, encosto, primeira, segunda e
terceira parte — e não há razão para que o homem não possa ser dividido da
mesma forma que uma cadeira. Finalmente, ele admite que isso servirá bem o
suficiente como uma classificação da constituição humana, mas não há realmente
nada de notavelmente novo nisso, pois, em sua opinião, o princípio subjacente à
divisão da constituição humana em seus quatro membros se aplica igualmente à
cadeira.
Quando nos voltamos para a físico-química, a questão já se
torna menos difícil. Lá, não se poderia falar tão levianamente sobre uma
simples divisão. O químico divide a água em hidrogênio e oxigênio; o cientista
natural não dividirá simplesmente a água em um sentido abstrato em duas partes,
hidrogênio e oxigênio.
Ele não pode parar por aí, porque sabe que o hidrogênio não
apenas se combina com o oxigênio, como na água, mas também se combina, por
exemplo, no ácido clorídrico, com o cloreto. Segue-se que o hidrogênio contido
na água não é encontrado apenas como parte da água, mas é capaz, quando não faz
parte da água, de entrar em combinações bastante diferentes. E da mesma forma,
o oxigênio, quando não faz parte da água, pode entrar em outras combinações e
se unir a substâncias bastante diferentes, como, por exemplo, o cálcio, na cal
Hidrogênio mais cloreto podem se tornar ácido clorídrico, oxigênio mais cálcio
se tornam cal. Aqui não se pode dizer: tudo o que você precisa fazer é dividir
a água em suas partes de forma abstrata, como uma cadeira.
O ser humano deve ser considerado num nível ainda mais elevado. Aqui, não temos meramente uma divisão em corpo físico, corpo etérico, corpo astral e "eu", mas o corpo físico do homem deve ser concebido como pertencente à Terra. Quando um ser humano atravessa o portal da morte e deixa para trás seu cadáver físico, o corpo físico retorna à Terra, mas o corpo etérico ascende ao éter. O corpo astral abandona ambos e entra nos mundos que são o domínio da segunda Hierarquia. E o "eu" pertence a um mundo diferente, o domínio da primeira Hierarquia. Esses quatro membros não representam meramente uma divisão para classificação; eles pertencem a esferas bastante distintas do Universo. Ao mesmo tempo, a distinção ilustra a natureza do ser humano. Temos aqui, num nível muito mais elevado, algo que já se busca ao progredir da comparação da cadeira com a da água.
Naturalmente, o nível de mentalidade em nossa civilização moderna apresenta novamente um obstáculo considerável, pois o tão citado filósofo poderia já ter aprendido com a química que não basta continuar falando apenas sobre divisões abstratas, que se pode aplicá-las a uma cadeira, mas não à água. No entanto, no caso desse suposto filósofo, a filosofia infelizmente não ultrapassou a barreira da cadeira e alcançou a água. Ela não ascendeu da observação das trivialidades da vida à ciência natural. Por outro lado, a ciência natural não se preocupa com a filosofia, de modo que o químico de hoje não pensa nessas coisas.
Isso mostra que, na filosofia que desse ponto de vista, pode ser chamada de "doutrina da cátedra", o pensamento em termos de ciência natural ainda não tem lugar. Novamente, na química, na ciência natural, a filosofia não desempenha nenhum papel. Portanto, é precisamente no mundo do cientista que faltam as condições que podem pavimentar o caminho para uma compreensão das verdades mais profundas e internas do Universo em sua relação com o ser humano.
O ser humano que empreendeu este estudo crítico, de fato,
submeteu-me primeiro o seu artigo, em manuscrito. Mas o que eu poderia fazer
com ele? Não se pode entrar numa discussão com um homem cuja mente carece dos
primeiros pré-requisitos. Não fiz nada a respeito, mas mais tarde encontrei o
artigo impresso com todos os erros e todos os disparates contidos em tal
"filosofia de gabinete". Tais são as provações do destino que a
Antroposofia tem de sofrer ao longo do caminho. É preciso ter clareza sobre
tais situações, pois elas surgem com tanta frequência entre a Antroposofia e os
seus críticos. É precisamente nesse âmbito que, por enquanto, não existe a
menor possibilidade de entendimento.
E este filósofo, muito citado entre filósofos, chega mesmo a
fazer certas concessões em consonância com ideias que são mais ou menos
populares na civilização moderna. Por exemplo, ele admite que outrora existiu
um continente entre a Europa e a América chamado "Atlântida",
habitado pelos antigos atlantes, uma humanidade pré-histórica. Então ele
levanta a questão hipotética — não estou citando textualmente — como é possível
que hoje, quando temos uma fisiologia e uma psicologia adequadas, alguém possa
conceber a ideia de dividir o ser humano dessa maneira! É claro que na
Antroposofia não se faz isso da mesma forma que se faz com uma cadeira, mas ele
pensa assim. Esse filósofo — à sua maneira, perfeitamente consciencioso —
estava sinceramente perplexo com a possibilidade de alguém fazer tal divisão,
ou sustentar uma concepção tão primitiva em comparação com o conhecimento que
um filósofo moderno pode possuir.
Bem, no que diz respeito às verdades fundamentais, o filósofo moderno não se encontra numa posição particularmente favorável, mas pensa que sim. Há dois dias, expliquei aos participantes do Curso para Professores o que é realmente a chamada “psicanálise” moderna.
Gostaria de repetir que a peculiaridade da psicanálise
reside no fato de que ela surge, por um lado, da fisiologia diletante, na qual
as forças da alma não alcançam a esfera do espírito, mas permanecem ligadas ao
corpo, enquanto, por outro lado, baseia-se na psicologia diletante. As duas não
se encontram. Como resultado, formulam-se conexões grotescas quando o
diletantismo se esforça por estabelecer conexões entre o trabalho de pesquisa
em psicologia e o trabalho de pesquisa em fisiologia. E o diletantismo é de
proporções imensas, e igualmente grande em ambos os casos. O próprio
diletantismo psicológico dos psiquiatras iguala-se em magnitude ao diletantismo
físico, mas quando ambos têm o mesmo volume e operam em conjunto,
multiplicam-se mutuamente. Isso, segundo a aritmética simples, equivale ao
quadrado do diletantismo. Assim, visto sob a verdadeira luz, a psicanálise é o
quadrado do diletantismo, pois é o produto da multiplicação do diletantismo
pelo diletantismo.
Ora, o problema para o nosso tão citado filósofo resumia-se
a isto: ele não conseguia entender como alguém poderia conceber uma ideia tão
primitiva como dividir o ser humano em quatro partes, como se divide uma
cadeira em três. Então, ele propõe a hipótese de que eu devo ser um Atlântida
reencarnado. Realmente bastante engenhoso do ponto de vista da filosofia da
cadeira!
Pode-se ser materialista se a falta de força interior
impossibilita que as forças da alma busquem uma abertura para encontrar o
caminho que leva ao mundo da alma e do espírito, às origens arquetípicas. Nada
se ganha tentando provar qualquer coisa com base em evidências grosseiras,
porque o materialismo certamente pode ser provado, desde que a evidência da
prova seja extraída do mundo físico. Esse é o ponto crucial. Para encontrar o
caminho do (mundo) físico para o (mundo) espiritual, é necessária atividade
interior, e não raciocínio abstrato. O caminho para a verdadeira Antroposofia é
encontrado através dessa atividade interior no ser humano que estimula a busca
pelo verdadeiro conhecimento. E toda escaramuça em tentativas de provar algo é
inútil, porque você não pode argumentar com um homem cujas provas são baseadas
inteiramente no mundo físico dos sentidos. Desmentir para tal homem o que para
ele é indiscutível permanece uma impossibilidade enquanto lhe faltar aquela
força primordial da vida interior que, sozinha, poderia colocá-lo no caminho
para encontrar o mundo espiritual.
[Ressalto que para Rudolf Steiner, a única forma de se estudar, pesquisar na Ciência Espiritual ou Antroposofia é usando o método goetheanístico-steineriano. Nota da trad.]
Isso deve ser compreendido. É preciso perceber que é dado ao homem ascender por sua própria vontade do físico para o espiritual, que essa ascensão ao mundo espiritual não é um ato de raciocínio limitado pelos sentidos, mas um ato de experiência/vivência humana interior e consciente. É somente quando se tem realmente essa experiência/ vivência interior vital que se torna capaz de apreciar a Antroposofia na perspectiva correta, em contraste com os méritos dos métodos meramente físicos de cognição.
Nosso tempo precisa desesperadamente disso. — Uma filosofia cujas capacidades analíticas de raciocínio só se aplicam a coisas como cadeiras, dificilmente poderá ter uma compreensão abrangente do que são os verdadeiros valores humanos. Ela é, no entanto, bastante competente ao lidar com valores relacionados a cadeiras. Mas o que a humanidade precisa hoje é daquilo que leva o ser humano ao ser humano, ao ser humano real, não meramente à sua aparência exterior. Em seu aspecto externo, a aparência reflete tudo o que é inerente ao arquétipo da entidade espiritual, mas não revela isso à vivência/ experiência interior. Pois, na experiência do Eu, o homem deve primeiro encontrar e reconhecer a si mesmo como um ser de alma e espírito. Assim, em última análise, o caminho para todo o conhecimento está ligado ao conhecimento de si mesmo como uma imagem do verdadeiro Eu do ser humano.
Se, com a crescente força do amor, se atinge aquele nível de
conhecimento pelo qual se reconhece como próprio aquilo que a princípio parece
ser um ente estranho, e ainda, eleva-se a à altura em que o mundo terreno se
reencontra no mundo arquetípico, então não se está mais envolvido num processo
de aquisição de conhecimento abstrato, mas num processo de cognição viva.
E é nesse processo vivo de aquisição de conhecimento que o
mundo se revela ao ser humano através do seu próprio ser, e que o seu próprio
ser se revela na sua vivência/ experiência do mundo exterior. Assim, o ser
humano torna-se um ser que se reencontra em todo o Universo, pois,
conhecendo-se a si mesmo, aprende a conhecer o mundo e, conhecendo o mundo,
aprende a conhecer a si mesmo. Nessa inter-relação entre o mundo e o ser humano,
revela-se aquilo que une o ser humano ao Divino-Espiritual, aquilo que faz o
seu ser resplandecer com o espírito de religiosidade de todo verdadeiro
conhecimento superior. E, finalmente, quando a cognição sincera se funde com a
experiência de religiosidade (devoção), então o conhecimento irradia emoção
religiosa, e a transparência do conhecimento é elevada àquela esfera onde a fé
se torna conhecimento através de seu próprio poder interno de cognição. O mundo
é encontrado no ser humano e o ser humano no mundo, no caminho do conhecimento
através do mundo.
Assim, mundo e ser humano se unem em um ser
espiritual-divino, cósmico e abrangente, no qual o ser humano encontra a si
mesmo e ao mundo e, assim, pela primeira vez, ascende à sua verdadeira
dignidade humana, que pode então também entrar em seu Ethos de religiososidade e
moral e torná-lo plenamente, um Ser Humano.
No mundo etérico: através do pensamento vivo: tocar.
No mundo astral: através do profundo silêncio da alma: falar.
No mundo espiritual: através do reconhecimento, memória.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.