07 março 2026

Cognição. Mundo Etérico. R Steiner

 Tradução e comentários: Sonia von Homrich

O desenvolvimento spiritual do Ser Humano. GA 84. III A faculdade de cognição do Ser Humano no Mundo Etérico. Dornach. 22 Abr 2023.

 The Spiritual Development of Man. GA 84. III Man's Faculty of Cognition in the Etheric World. 22 April 1923, Dornach

 

Três palestras dadas por Rudolf Steiner em Dornach, 20, 21, 22 de Abril de 1923. Palestras 4, 5, 6 do ciclo de 11 palestras intituladas "O Desafio para o Goetheanum e para a Antroposofia". (Em alemão: Was Wollte das Goetheanum und Was Soll Die Anthroposophie?)

1.        A Vivência Interior  da Atividade do Pensar. 20/Abr/1923

2.        O Mundo Físico e o Impulso Moral-Espiritual. 21/Abr/1923

3.        A faculdade de Cognição do Ser Humano no Mundo Etérico. 22/Abr/1923

Three lectures given by Rudolf Steiner at Dornach, 20th, 21st, and 22nd of April, 1923. They are lectures four, five, and six of eleven lectures in the series entitled, A Challenge for the Goetheanum and for Anthroposophy. Published in German as, Was Wollte das Goetheanum und Was Soll Die Anthroposophie?

  1. The Inner Experience of the Activity of Thinking April 20 1923
  2. The Physical World and the Moral-Spiritual Impulse April 21, 2023
  3. Man’s faculty of Cognition in the Etheric World April 22, 1923

https://rsarchive.org/Lectures/GA084/English/LZ0290/SpiDev_index.html

Nos últimos dias, tenho falado sobre o lugar do homem no Universo. Por um lado, concebemos a organização do homem como composta por corpo físico, corpo etérico ou corpo de forças formativas, corpo astral (alma) e o verdadeiro "Eu" (Espírito) que transita de vida terrena para vida terrena. Ao mesmo tempo, também tentei mostrar como cada um desses membros do ser humano está conectado de maneira diferente com o Universo. Pode-se dizer que o corpo físico está conectado com tudo o que é físico, o mundo terreno dos sentidos; o corpo físico do homem faz parte desse mundo. Mas quando pensamos no corpo etérico ou no corpo de forças formativas, devemos compreender que este pertence a um tipo de mundo bastante diferente, aquele mundo que é ele próprio - etérico e do qual lhes disse que o homem deveria experimentá-lo como advindo dos espaços distantes do cosmos. Se, então, imaginarmos as forças da Terra se espalhando em todas as direções e o homem vivendo dentro dessas forças, que são as do mundo físico, devemos conceber o mundo etérico como vindo de todos os lados e direções, da camada global externa do universo para encontrar as forças físicas que fluem para fora, e assim alcançar o homem. É óbvio, portanto, que o corpo etérico do homem está sujeito a leis inteiramente diferentes daquelas que governam o corpo físico. — E novamente, ao contemplar o corpo astral/alma do homem, percebemos que ele está conectado com mundos que não são encontrados de forma alguma naquele cosmos que está contido no físico e no etérico, e no qual descobrimos que, com nosso corpo astral, pertencemos ao mundo no qual entramos entre a morte e um novo nascimento.

E finalmente, com o próprio ‘Eu’/Espírito, pertencemos a um mundo que flui como de uma fonte vivificante através de mundos que, considerando por exemplo, o nosso próprio mundo, são de caráter tríplice. Os três membros do nosso mundo são o físico, o etérico e o astral. O mundo do ‘Eu’ atravessa este mundo e outros mundos tripartides (3 partes) semelhantes. É, portanto, um mundo muito mais abrangente, que devemos considerar eterno em comparação com o temporal.

Mas também devemos levar em conta o fato de que, sempre que empregamos as faculdades humanas de percepção e compreensão que nos informam sobre o corpo etérico ou o corpo das forças formativas, o corpo astral e o ‘Eu’, na verdade entramos em mundos completamente diferentes. Temos que mudar para a esfera do pensamento ativo-vivo para experimentar nosso corpo etérico. O que então devemos ter em mente é que, nesse mundo, tudo é diferente do que experimentamos enquanto estamos presos ao mundo físico dos sentidos. Em primeiro lugar, as coisas e os acontecimentos que conhecemos do ponto de vista do mundo físico aparecem sob uma luz bastante diferente nesses mundos superiores. Afinal, as coisas e os eventos encontrados no mundo físico são apenas manifestações finais. Eles têm sua origem nos mundos superiores; de modo que vemos mais sobre as origens primárias de nosso entorno no mundo físico. Mas, além disso, quando no mundo físico temos, para começar, o mundo bem conhecido pela consciência comum, onde o homem está rodeado pelos três reinos da natureza, além do seu próprio, quando nos elevamos às faculdades de cognição — em minhas Conferências usei a expressão "Cognição Imaginativa" — que nos permitem vivenciar nosso próprio corpo etérico ou o corpo das forças formativas, entramos no mundo etérico. E desenvolvemos e fortalecemos suficientemente nossas faculdades quando acendemos a luz interior e podemos nos vivenciar, por assim dizer, no Segundo Homem/ Ser-Humano, no corpo das forças formativas; então entramos no mundo que, pelo menos inicialmente, se revela a nós em imagens: o mundo dos Anjos, Arcanjos e Arqueus.

Tendo rompido, por assim dizer, para as esferas cósmicas onde o corpo etérico, o corpo das forças formativas, se torna perceptível para nós, reconhecemos, ao entrar neste mundo de imagens fluidas, que estas revelam manifestações dos Seres da terceira Hierarquia, os Anjos, Arcanjos e Arqueus.  Ali estamos entre Seres que não estão conosco no mundo físico dos sentidos. A presença desses Seres se revela a nós por meio de qualidades semelhantes em essência àquelas que percebemos também através de nossos sentidos no mundo físico.

Mas aqui, no mundo dos sentidos, vemos, por exemplo, as cores espalhadas sobre a superfície das coisas ou em configurações puramente físicas, como o arco-íris. Os sons são experimentados como conectados a objetos específicos no mundo físico. Da mesma forma, o calor e o frio são sentidos como emanando de certos objetos no mundo físico dos sentidos. Mas quando observamos o mundo no qual a terceira Hierarquia nos é revelada, não vemos cores aderindo às coisas, sons reverberando dos objetos e assim por diante, mas sim cores, sons, calor e frio,  fluindo e vibrando — dificilmente se pode dizer através do espaço — mas fluindo e vibrando no tempo. A cor não se espalha sobre a superfície das coisas, mas flutua e se move em ondas. E aplicando as faculdades que nos permitiram entrar nesses mundos (Cognição Imaginativa), sabemos que, assim como no mundo físico o efeito da cor sugere numa base material, também naquele mundo a nuvem flutuante de cor, um organismo fluido de cor, é a manifestação do trabalho e da tecelagem das forças do espírito e da alma da terceira Hierarquia. De modo que, no momento em que contemplamos o quadro da vida do qual falei, que oferece uma imagem clara e espontânea de toda a nossa vida desde o nascimento (Registro Akáshico), também aparece dentro desse fluxo dos eventos de nossa própria vida algo do qual se pode dizer: dentro do mundo desmaterializado de cores e sons fluidos vive a terceira Hierarquia.

Quando nossas faculdades de cognição são fortes o suficiente para atingir o nível no qual podemos observar nosso próprio corpo astral, isto é, aquela parte de nós que existia antes de descermos à vida terrena e que carregaremos conosco novamente quando passarmos pelo portal da morte, então sabemos: este é um mundo mais amplo, um mundo que não encontramos no éter cósmico, mas além dos portões do nascimento e da morte. Aqui entramos no mundo astral mais amplo.

As coisas não coincidem exatamente com as descrições dadas em meu livro, "Teosofia" (antes de chamar a Ciência Espiritual de Antroposofia), onde são apresentadas de um ponto de vista diferente. Mas assim como encontramos a terceira Hierarquia quando alcançamos a experiência de nosso corpo de forças formativas, também encontramos a segunda Hierarquia, os Exusiai, Kyriotetes e Dynamis, no mundo que nos revela nosso próprio corpo astral. E esta segunda Hierarquia não se torna perceptível para nós em cores e sons fluidos, mas se manifesta para nós anunciando e proclamando a importância das revelações do Logos que ressoam e se entrelaçam pelo Universo. A segunda Hierarquia fala conosco.

Se, depois de ter alcançado os poderes de cognição necessários, alguém quiser dar alguma indicação de como se relaciona com esses mundos, usando palavras que naturalmente não têm mais um significado aplicável no mundo sensorial, mas que ainda são, em certa medida, expressivas em relação aos mundos superiores, deve-se dizer: Para o mundo etérico, o pensamento-vivo interior torna-se uma espécie de órgão do tato. Com o pensamento vivo, tocamos este mundo de cores fluidas e assim por diante. Não devemos imaginar que vemos o vermelho como o olho vê - o vermelho dos sentidos, espalhado na superfície das coisas; em vez disso, sentimos, 'tocamos' o vermelho e o amarelo e assim por diante; tocamos os sons, de modo que possamos dizer: no mundo etérico, o pensamento-vivo é o elemento do toque em relação ao que vive no mundo da terceira Hierarquia.

Ao entrarmos nesse mundo ao qual, em certo sentido, nosso corpo astral pertence, não podemos falar de experimentar esse mundo astral meramente através do elemento do toque, mas devemos dizer: apreendemos sobre este mundo como a revelação dos Seres da segunda Hierarquia. Cada manifestação separada se apresenta a nós como um membro, uma parte do Logos do Mundo. Do profundo silêncio ressoa a voz dos Seres Espirituais. Assim, após o toque, a fala, a comunicação.

 E quando, da maneira que indiquei, o esforço contínuo nos recompensa com a experiência do ‘Eu’ que vai de vida terrena em vida terrena e, entre elas, passa pelas outras vidas entre cada morte e um novo nascimento, então entramos no mundo espiritual propriamente dito, o mundo espiritual superior. O que acontece neste mundo, para começar, é que entramos numa relação especial com o nosso verdadeiro "Eu". O "Eu" que experimentamos interiormente aqui nesta vida na Terra, entre o nascimento e a morte, está, como sabemos, ligado à corporeidade física. Temos consciência disso enquanto nos experimentamos no corpo físico e, de certa forma, somos forçados a praticar o desapego quando ascendemos ao mundo etérico.

 Mas agora encontramos o verdadeiro ‘Eu’ à medida que ele transita de uma vida terrena para outra. Nossa primeira impressão é a de um ser completamente diferente. Dizemos a nós mesmos: Aqui vivo esta existência terrena entre o nascimento e a morte. Olhando para trás, vejo aquela faixa do mundo etérico que me leva de volta ao meu nascimento na Terra. Então, minha visão se abre para reinos globais que existem apenas no tempo, onde falar de espaço seria bastante enganoso; mas, em uma perspectiva ampla, o mundo me aparece em toda a sua plenitude, enquanto vive e se entrelaça entre a morte e um novo nascimento. Olhando através e além do éter, o mundo da terceira Hierarquia, e através do astral, onde eu estava entre a morte e um novo nascimento, como em um mundo suprassensível cuja vida é a revelação do Logos manifestando-se como a Palavra Cósmica — à medida que minha visão penetra tudo isso, finalmente contemplo um ser a princípio muito distante, um ser que representa a essência da minha vida anterior na Terra. Primeiro, então, vejo-me aqui nesta vida terrena com meu presente "Eu" fantasmagórico, e então, olhando para trás através de tudo o que foi descrito, vejo o que constitui a essência da minha vida anterior na Terra. Mas, ao mesmo tempo, percebo como o conteúdo desta última, como o "Eu" em gradual evolução, tem passado pelos mundos que tenho observado em perspectiva retrospectiva até minha vida atual na Terra. Para começar, de fato, percebo meu verdadeiro "Eu" como algum ser estranho e remoto. E neste ser, por mais estranho que me pareça a princípio, reconheço a mim mesmo.

Cada palavra nesta passagem deve ser levada com absoluta seriedade, porque cada palavra é significativa. Toda essa experiência deve culminar na percepção de que o verdadeiro "Eu", inicialmente considerado algum ser estranho, é na verdade o próprio Eu; o qual surgiu parecendo ser algum outro ser que viveu em um passado muito distante, mas que, na verdade, é você mesmo.

E então se descobre como esse Eu fluiu da existência anterior na Terra para a vida terrena presente, mas que agora, nesta vida, está encoberto, por assim dizer, e só poderia emergir se tudo o que acontece entre o adormecer e o despertar fosse revelado à alma. É aí que tudo aquilo que, em seu caminho pelo mundo astral e etérico, nos alcançou desde nossa vida anterior na Terra, continua a viver e a se entrelaçar.

É, veja bem, um mundo de contradições terrenas misturadas com acordes de harmonias celestiais neste processo interior da alma em busca: contradições terrenas na medida em que, por meios concebidos para atender às necessidades da vida cotidiana comum na Terra, não se pode realmente alcançar o próprio 'Eu' verdadeiro. Apenas os primeiros rudimentos do amor vivem em nosso 'Eu' terreno. E mesmo assim, um brilho é lançado sobre a vida na Terra através do poder do amor que irradia para esta vida terrena. Mas esse amor precisa se fortalecer. Deve adquirir força suficiente para permitir ao ser humano contemplar o mundo etérico e o mundo astral através do poder do amor e, assim, superar aquilo que nele reside como seu eu-inferior/ego, como egoísmo — o oposto do amor — para obter domínio sobre aquilo que, como antítese do amor, lhe permite experimentar a si mesmo na vida terrena como um "Eu" independente. O amor deve crescer tanto que se aprenda a ignorar esse "Eu" terreno, a esquecê-lo, a desconsiderá-lo. O amor é a identificação do próprio Eu com o outro ser. Esse impulso deve ser tão forte que se deixe de dar atenção ao próprio "Eu" enquanto ele reside no corpo terreno. Surge, então, a contradição: é precisamente através da abnegação, através da mais elevada capacidade de amar, que se avança em direção ao próprio "Eu" verdadeiro, que acena enquanto irradia através dos ciclos do tempo.

É preciso perder o próprio "eu" terreno para contemplar o verdadeiro "Eu". E aquele que não consegue realizar esse ato de entrega simplesmente não tem meios de encontrar o verdadeiro "Eu". Poderíamos dizer que o verdadeiro "Eu" não quer ser procurado sempre que se deseja revelar sua presença. Se procurado, ele se esconde. Pois somente no amor ele será encontrado, e o amor é uma entrega de si mesmo a outro ser. Por essa razão, o verdadeiro Eu deve ser encontrado como se fosse um outro ser.

No momento de se deparar com o próprio verdadeiro "Eu", também se toma consciência do que vive em um mundo mais amplo, no próprio mundo espiritual. Aí encontram-se os seres da primeira Hierarquia: Serafins, Querubins, Tronos.

E assim como ali se reencontra o próprio "Eu" — do qual se tem apenas um reflexo na vida terrena —, agora se encontra todo o mundo do ambiente terreno em sua verdadeira forma espiritual. Portanto, é preciso também perder este mundo terreno para encontrar o mundo de suas origens primordiais, juntamente com o verdadeiro ‘Eu’.

De modo que possamos dizer: O que se revela no mundo espiritual é algo lembrado, é o toque, a fala, a memória; mas a lembrança de algo que antes se conhecia apenas em reflexões, em imagens.

Assim, ao vivenciar o próprio eu humano e ao perceber a própria humanidade, entra-se na vida do Universo em sua totalidade. E para dar uma imagem clara dos vários membros do ser humano – o corpo físico, o corpo etérico, o corpo astral e o “Eu” –, cada um deve também ser mostrado em sua relação com os mundos correspondentes do Universo.

O que descrevi agora deve ser bem compreendido e levado em consideração em seu pleno significado antes que qualquer abordagem ao problema das quatro partes da natureza humana possa revelar seu verdadeiro significado. Eis um exemplo que demonstra claramente que o ser humano não deve apenas direcionar seus pensamentos para outros caminhos, mas pensar de maneira diferente se quiser alcançar uma verdadeira compreensão do mundo espiritual. Ele deve dar vida ao que são, na realidade, apenas imagens mortas na percepção sensorial puramente física: sua atitude mental deve mudar.

E aqui podemos, de fato, encontrar alguns produtos extraordinários da vida espiritual moderna, que mostram as dificuldades que precisam ser superadas para que a Ciência Espiritual de Rudolf Steiner, a Antroposofia penetre nas almas dos seres humanos.

Quando o livro "Ciência Oculta" foi publicado, um renomado filósofo moderno decidiu analisá-lo.

Ciência Oculta, Editora Antroposófica https://www.antroposofica.com.br/listaprodutos.asp?idproduto=9013992  (Nota da trad)

 Este filósofo moderno citado começou lendo o capítulo sobre os quatro componentes da constituição humana — corpo físico, corpo etérico, corpo astral, o "eu" — e assim por diante. Ora, este livro também foi lido por muitas pessoas simples, mas dotadas de bom senso. Para elas, o livro tinha sentido e propósito, pois com bom senso sempre se pode acompanhar um assunto, assim como se pode entender uma pintura sem ser pintor. Mas para alguém que hoje é um filósofo muito citado, tal compreensão apresenta dificuldades consideravelmente maiores do que para um ser humano ingênuo e simples. Ao ler "corpo físico", "corpo etérico", "corpo astral", o "eu" fica perplexo e se pergunta o que tudo isso significa. O que tudo isso quer dizer? Corpo físico, sim, claro. Corpo etérico? Bem, talvez exista. O que é matéria densa no corpo físico pode aqui ser de substância mais sutil, mas ainda é matéria. Ele argumenta, portanto, que distinguir entre corpo físico e corpo etérico é traçar uma linha divisória arbitrária entre os dois. — Corpo astral? — Sabemos algo sobre a alma, diz este filósofo, mas — corpo astral? Na alma temos o pensar, o sentir e o querer. Estas são funções do corpo físico. Se alguém compreende o corpo físico, também compreende o significado de pensar, sentir e querer. E o ‘eu’ — isso é apenas a síntese de tudo isso. Tal era sua forma de argumentar.

E agora, observem como o pensamento crítico do renomado filósofo foi formulado. — Levando em conta o que encontrou na “Ciência Oculta”: assim como se olha para uma cadeira, disse a si mesmo: uma cadeira também pode ser dividida em suas partes — pernas, assento, encosto, primeira, segunda e terceira parte — e não há razão para que o homem não possa ser dividido da mesma forma que uma cadeira. Finalmente, ele admite que isso servirá bem o suficiente como uma classificação da constituição humana, mas não há realmente nada de notavelmente novo nisso, pois, em sua opinião, o princípio subjacente à divisão da constituição humana em seus quatro membros se aplica igualmente à cadeira.

Quando nos voltamos para a físico-química, a questão já se torna menos difícil. Lá, não se poderia falar tão levianamente sobre uma simples divisão. O químico divide a água em hidrogênio e oxigênio; o cientista natural não dividirá simplesmente a água em um sentido abstrato em duas partes, hidrogênio e oxigênio.

Ele não pode parar por aí, porque sabe que o hidrogênio não apenas se combina com o oxigênio, como na água, mas também se combina, por exemplo, no ácido clorídrico, com o cloreto. Segue-se que o hidrogênio contido na água não é encontrado apenas como parte da água, mas é capaz, quando não faz parte da água, de entrar em combinações bastante diferentes. E da mesma forma, o oxigênio, quando não faz parte da água, pode entrar em outras combinações e se unir a substâncias bastante diferentes, como, por exemplo, o cálcio, na cal Hidrogênio mais cloreto podem se tornar ácido clorídrico, oxigênio mais cálcio se tornam cal. Aqui não se pode dizer: tudo o que você precisa fazer é dividir a água em suas partes de forma abstrata, como uma cadeira.

O ser humano deve ser considerado num nível ainda mais elevado. Aqui, não temos meramente uma divisão em corpo físico, corpo etérico, corpo astral e "eu", mas o corpo físico do homem deve ser concebido como pertencente à Terra. Quando um ser humano atravessa o portal da morte e deixa para trás seu cadáver físico, o corpo físico retorna à Terra, mas o corpo etérico ascende ao éter. O corpo astral abandona ambos e entra nos mundos que são o domínio da segunda Hierarquia. E o "eu" pertence a um mundo diferente, o domínio da primeira Hierarquia. Esses quatro membros não representam meramente uma divisão para classificação; eles pertencem a esferas bastante distintas do Universo. Ao mesmo tempo, a distinção ilustra a natureza do ser humano. Temos aqui, num nível muito mais elevado, algo que já se busca ao progredir da comparação da cadeira com a da água.

Naturalmente, o nível de mentalidade em nossa civilização moderna apresenta novamente um obstáculo considerável, pois o tão citado filósofo poderia já ter aprendido com a química que não basta continuar falando apenas sobre divisões abstratas, que se pode aplicá-las a uma cadeira, mas não à água. No entanto, no caso desse suposto filósofo, a filosofia infelizmente não ultrapassou a barreira da cadeira e alcançou a água. Ela não ascendeu da observação das trivialidades da vida à ciência natural. Por outro lado, a ciência natural não se preocupa com a filosofia, de modo que o químico de hoje não pensa nessas coisas.

Isso mostra que, na filosofia que desse ponto de vista, pode ser chamada de "doutrina da cátedra", o pensamento em termos de ciência natural ainda não tem lugar. Novamente, na química, na ciência natural, a filosofia não desempenha nenhum papel. Portanto, é precisamente no mundo do cientista que faltam as condições que podem pavimentar o caminho para uma compreensão das verdades mais profundas e internas do Universo em sua relação com o ser humano.

O ser humano que empreendeu este estudo crítico, de fato, submeteu-me primeiro o seu artigo, em manuscrito. Mas o que eu poderia fazer com ele? Não se pode entrar numa discussão com um homem cuja mente carece dos primeiros pré-requisitos. Não fiz nada a respeito, mas mais tarde encontrei o artigo impresso com todos os erros e todos os disparates contidos em tal "filosofia de gabinete". Tais são as provações do destino que a Antroposofia tem de sofrer ao longo do caminho. É preciso ter clareza sobre tais situações, pois elas surgem com tanta frequência entre a Antroposofia e os seus críticos. É precisamente nesse âmbito que, por enquanto, não existe a menor possibilidade de entendimento.

E este filósofo, muito citado entre filósofos, chega mesmo a fazer certas concessões em consonância com ideias que são mais ou menos populares na civilização moderna. Por exemplo, ele admite que outrora existiu um continente entre a Europa e a América chamado "Atlântida", habitado pelos antigos atlantes, uma humanidade pré-histórica. Então ele levanta a questão hipotética — não estou citando textualmente — como é possível que hoje, quando temos uma fisiologia e uma psicologia adequadas, alguém possa conceber a ideia de dividir o ser humano dessa maneira! É claro que na Antroposofia não se faz isso da mesma forma que se faz com uma cadeira, mas ele pensa assim. Esse filósofo — à sua maneira, perfeitamente consciencioso — estava sinceramente perplexo com a possibilidade de alguém fazer tal divisão, ou sustentar uma concepção tão primitiva em comparação com o conhecimento que um filósofo moderno pode possuir.

Bem, no que diz respeito às verdades fundamentais, o filósofo moderno não se encontra numa posição particularmente favorável, mas pensa que sim. Há dois dias, expliquei aos participantes do Curso para Professores o que é realmente a chamada “psicanálise” moderna.

Gostaria de repetir que a peculiaridade da psicanálise reside no fato de que ela surge, por um lado, da fisiologia diletante, na qual as forças da alma não alcançam a esfera do espírito, mas permanecem ligadas ao corpo, enquanto, por outro lado, baseia-se na psicologia diletante. As duas não se encontram. Como resultado, formulam-se conexões grotescas quando o diletantismo se esforça por estabelecer conexões entre o trabalho de pesquisa em psicologia e o trabalho de pesquisa em fisiologia. E o diletantismo é de proporções imensas, e igualmente grande em ambos os casos. O próprio diletantismo psicológico dos psiquiatras iguala-se em magnitude ao diletantismo físico, mas quando ambos têm o mesmo volume e operam em conjunto, multiplicam-se mutuamente. Isso, segundo a aritmética simples, equivale ao quadrado do diletantismo. Assim, visto sob a verdadeira luz, a psicanálise é o quadrado do diletantismo, pois é o produto da multiplicação do diletantismo pelo diletantismo.

Ora, o problema para o nosso tão citado filósofo resumia-se a isto: ele não conseguia entender como alguém poderia conceber uma ideia tão primitiva como dividir o ser humano em quatro partes, como se divide uma cadeira em três. Então, ele propõe a hipótese de que eu devo ser um Atlântida reencarnado. Realmente bastante engenhoso do ponto de vista da filosofia da cadeira!

Pode-se ser materialista se a falta de força interior impossibilita que as forças da alma busquem uma abertura para encontrar o caminho que leva ao mundo da alma e do espírito, às origens arquetípicas. Nada se ganha tentando provar qualquer coisa com base em evidências grosseiras, porque o materialismo certamente pode ser provado, desde que a evidência da prova seja extraída do mundo físico. Esse é o ponto crucial. Para encontrar o caminho do (mundo) físico para o (mundo) espiritual, é necessária atividade interior, e não raciocínio abstrato. O caminho para a verdadeira Antroposofia é encontrado através dessa atividade interior no ser humano que estimula a busca pelo verdadeiro conhecimento. E toda escaramuça em tentativas de provar algo é inútil, porque você não pode argumentar com um homem cujas provas são baseadas inteiramente no mundo físico dos sentidos. Desmentir para tal homem o que para ele é indiscutível permanece uma impossibilidade enquanto lhe faltar aquela força primordial da vida interior que, sozinha, poderia colocá-lo no caminho para encontrar o mundo espiritual.

[Ressalto que para Rudolf Steiner, a única forma de se estudar, pesquisar na Ciência Espiritual ou Antroposofia é usando o método goetheanístico-steineriano. Nota da trad.]

Isso deve ser compreendido. É preciso perceber que é dado ao homem ascender por sua própria vontade do físico para o espiritual, que essa ascensão ao mundo espiritual não é um ato de raciocínio limitado pelos sentidos, mas um ato de experiência/vivência humana interior e consciente. É somente quando se tem realmente essa experiência/ vivência interior vital que se torna capaz de apreciar a Antroposofia na perspectiva correta, em contraste com os méritos dos métodos meramente físicos de cognição.

Nosso tempo precisa desesperadamente disso. — Uma filosofia cujas capacidades analíticas de raciocínio só se aplicam a coisas como cadeiras, dificilmente poderá ter uma compreensão abrangente do que são os verdadeiros valores humanos. Ela é, no entanto, bastante competente ao lidar com valores relacionados a cadeiras. Mas o que a humanidade precisa hoje é daquilo que leva o ser humano ao ser humano, ao ser humano real, não meramente à sua aparência exterior. Em seu aspecto externo, a aparência reflete tudo o que é inerente ao arquétipo da entidade espiritual, mas não revela isso à vivência/ experiência interior. Pois, na experiência do Eu, o homem deve primeiro encontrar e reconhecer a si mesmo como um ser de alma e espírito. Assim, em última análise, o caminho para todo o conhecimento está ligado ao conhecimento de si mesmo como uma imagem do verdadeiro Eu do ser humano.

Se, com a crescente força do amor, se atinge aquele nível de conhecimento pelo qual se reconhece como próprio aquilo que a princípio parece ser um ente estranho, e ainda, eleva-se a à altura em que o mundo terreno se reencontra no mundo arquetípico, então não se está mais envolvido num processo de aquisição de conhecimento abstrato, mas num processo de cognição viva.

E é nesse processo vivo de aquisição de conhecimento que o mundo se revela ao ser humano através do seu próprio ser, e que o seu próprio ser se revela na sua vivência/ experiência do mundo exterior. Assim, o ser humano torna-se um ser que se reencontra em todo o Universo, pois, conhecendo-se a si mesmo, aprende a conhecer o mundo e, conhecendo o mundo, aprende a conhecer a si mesmo. Nessa inter-relação entre o mundo e o ser humano, revela-se aquilo que une o ser humano ao Divino-Espiritual, aquilo que faz o seu ser resplandecer com o espírito de religiosidade de todo verdadeiro conhecimento superior. E, finalmente, quando a cognição sincera se funde com a experiência de religiosidade (devoção), então o conhecimento irradia emoção religiosa, e a transparência do conhecimento é elevada àquela esfera onde a fé se torna conhecimento através de seu próprio poder interno de cognição. O mundo é encontrado no ser humano e o ser humano no mundo, no caminho do conhecimento através do mundo.

Assim, mundo e ser humano se unem em um ser espiritual-divino, cósmico e abrangente, no qual o ser humano encontra a si mesmo e ao mundo e, assim, pela primeira vez, ascende à sua verdadeira dignidade humana, que pode então também entrar em seu Ethos de religiososidade e moral e torná-lo plenamente, um Ser Humano.


No mundo etérico: através do pensamento vivo: tocar.

No mundo astral: através do profundo silêncio da alma: falar.

No mundo espiritual: através do reconhecimento, memória.

Quaresma. Arquivo Rudolf Steiner.

 Os 40 dias da quaresma, texto do Arquivo Rudolf Steiner baseado nas Conferências de Rudolf Steiner (Notas abaixo)

Em Inglês e Português (tradução Sonia von Homrich)

The 40 days of Lent

The earth sinks from its original state
Is an abyss certain for the well-intentioned?
Earthly man has lost the heritage of eternity
The sick require healing
A leader must arise for the misguided
The light must shine for him in the darkness
The power of the senses must spiritually turn.
1

 Lent is the forty days before Holy Week and Easter, beginning on Ash Wednesday.2 This season recognizes Christ Jesus fasting in the wilderness to develop the Logos within his human body. During Lent, we prepare both physically and spiritually for what lies ahead. Now that the candles of the holidays have been burned to ashes, "the power of the senses must spiritually turn" to kindle the fire of Christ within us. Christ Jesus lights the way.

 

Os 40 dias da Quaresma

 

A terra afunda desde seu estado original

Será certeza um abismo para os bem-intencionados?

O homem terreno perdeu a herança da eternidade

Os doentes requerem cura

Um líder deve surgir para os equivocados

Para ele a luz deve brilhar nas trevas

O poder dos sentidos deve se voltar/tornar espiritualmente.1

 

Quaresma são os quarenta dias que antecedem a Semana Santa e a Páscoa, começando na Quarta-feira de Cinzas.2 . Este período reconhece o jejum de Cristo Jesus no deserto para desenvolver o Logos em seu corpo humano. Durante a Quaresma, preparamo-nos física e espiritualmente para o que está adiante (está por vir). Agora que as velas das festas foram reduzidas a cinzas, "o poder dos sentidos deve se virar (tornar) espiritualmente" para reacender a chama de Cristo dentro de nós. Cristo Jesus ilumina o caminho.

A time of testing and preparation

As Rudolf Steiner explains, it was necessary for Jesus to retreat into the wilderness after his baptism to fully develop his super-sensible abilities.

After Jesus of Nazareth took the Christ-being into himself he had to go into the wilderness. There he had clairvoyant visions, which are described fairly accurately by the words of the clairvoyant Gospel writers. It could also be said that now the Christ-being was really bound to the three bodies of Jesus. That means that he descended from the spiritual world and became limited to the capacities of the three bodies. Therefore it would be false to think that Christ, because he belonged to a higher world from which he had descended, could now immediately envision that higher world. That is not the case. Whoever finds this incomprehensible should think again about what it means to be clairvoyant. You are all clairvoyant! All! There is not one here who is not clairvoyant. So why don't you all see clairvoyantly? Because you haven't developed the organs in order to use the forces which reside in all humans. It is not a question of having the capacities, but rather of being able to use them.3

During this time of preparation, Christ Jesus was challenged by both Ahriman (satan) and Lucifer (the devil), as are all human beings. Steiner explains, “He felt himself drawn to Ahriman and Lucifer, for it is against them that humanity must fight. Therefore the Christ-Being, who had never existed in a human body, departed into solitude to do battle with Ahriman and Lucifer.” 4 He was tempted three times.

Um tempo de provação e preparação

Como explica Rudolf Steiner, foi necessário que Jesus se retirasse para o deserto após seu batismo (30 anos) para desenvolver plenamente suas habilidades suprassensíveis.

Depois que Jesus de Nazaré recebeu o Ser-de-Cristo em si mesmo, ele precisou ir para o deserto. Lá, ele teve visões clarividentes, que são descritas em palavras, com bastante precisão pelos clarividentes evangelistas. Pode-se dizer que agora o Ser-de-Cristo estava realmente ligado aos três corpos de Jesus (Corpo Físico, Corpo Etérico, Corpo Astral). Isso significa que Ele desceu do mundo espiritual e ficou limitado às capacidades dos três corpos. Portanto, seria falso pensar que Cristo, por pertencer a um mundo superior do qual desceu, poderia agora vislumbrar imediatamente esse mundo superior. Não é esse o caso. Quem achar isso incompreensível deve repensar o que significa ser clarividente. Vocês são todos clarividentes! Todos! Não há ninguém aqui que não seja clarividente. Então, por que vocês não enxergam clarividentemente? Porque vocês não desenvolveram os órgãos necessários para usar as forças que residem em todos os seres humanos. Não se trata de ter as capacidades, mas sim de estar apto a usá-las.3.

Durante esse tempo de preparação, Cristo Jesus foi desafiado tanto por Ahriman (Satanás) quanto por Lúcifer (o diabo), como acontece com todos os seres humanos. Steiner explica: “Ele sentiu a si mesmo atraído por Ahriman e Lúcifer, pois é contra eles que a humanidade deve lutar. Portanto, o Ser-de-Cristo, que nunca existiu em um corpo humano, retirou-se para a solidão para lutar contra Ahriman e Lúcifer.” 4.  Ele foi tentado três vezes.

1. By Lucifer

At that moment he sensed what that being was attempting in the language of visions — what the Bible describes with the words: '𝐀𝐥𝐥 𝐭𝐡𝐞 𝐤𝐢𝐧𝐠𝐝𝐨𝐦𝐬 𝐲𝐨𝐮 𝐬𝐞𝐞 𝐛𝐞𝐟𝐨𝐫𝐞 𝐲𝐨𝐮' — 𝐤𝐢𝐧𝐠𝐝𝐨𝐦𝐬 𝐨𝐟 𝐭𝐡𝐞 𝐬𝐩𝐢𝐫𝐢𝐭𝐮𝐚𝐥 𝐰𝐨𝐫𝐥𝐝 — '𝐜𝐚𝐧 𝐛𝐞 𝐲𝐨𝐮𝐫𝐬 𝐢𝐟 𝐲𝐨𝐮 𝐫𝐞𝐜𝐨𝐠𝐧𝐢𝐳𝐞 𝐦𝐞 𝐚𝐬 𝐭𝐡𝐞 𝐥𝐨𝐫𝐝 𝐨𝐟 𝐭𝐡𝐢𝐬 𝐰𝐨𝐫𝐥𝐝.' If one is full of pride and arrogance and brings it into the spiritual world, one can own this world's kingdom of Lucifer because arrogance submerges everything else if everything except arrogance is left behind. [...]Then he recognized that figure as the one he had seen at the gates of the Essenes: Lucifer! Therefore he knew that now Lucifer was speaking to him, and he repulsed the attack. 𝐇𝐞 𝐝𝐞𝐟𝐞𝐚𝐭𝐞𝐝 𝐋𝐮𝐜𝐢𝐟𝐞𝐫.

2. By Ahriman & Lucifer

Then two beings came to attack him, and he had the impression which was more or less what the Bible describes. They said to him: '𝐒𝐡𝐨𝐰 𝐚𝐥𝐥 𝐲𝐨𝐮𝐫 𝐟𝐞𝐚𝐫𝐥𝐞𝐬𝐬𝐧𝐞𝐬𝐬, 𝐲𝐨𝐮𝐫 𝐬𝐭𝐫𝐞𝐧𝐠𝐭𝐡, 𝐬𝐡𝐨𝐰 𝐰𝐡𝐚𝐭 𝐲𝐨𝐮 𝐜𝐚𝐧 𝐝𝐨 𝐚𝐬 𝐚 𝐦𝐚𝐧 𝐛𝐲 𝐭𝐡𝐫𝐨𝐰𝐢𝐧𝐠 𝐲𝐨𝐮𝐫𝐬𝐞𝐥𝐟 𝐟𝐫𝐨𝐦 𝐭𝐡𝐞 𝐡𝐞𝐢𝐠𝐡𝐭𝐬 𝐚𝐧𝐝 𝐧𝐨𝐭 𝐟𝐞𝐚𝐫 𝐛𝐞𝐢𝐧𝐠 𝐢𝐧𝐣𝐮𝐫𝐞𝐝.' In such a case consciousness of strength and courage should awaken in the human soul, but it can also make him a sensualist. Two figures stood before him. Because Jesus had had the impression that it was Lucifer and Ahriman who had flown away from the Essene gates, he now had the impression that within one of them was the same being whom the leper had encountered and who had presented himself as death. Because of these experiences he recognized Lucifer and Ahriman. […] He also repulsed this attack. 𝐇𝐞 𝐝𝐞𝐟𝐞𝐚𝐭𝐞𝐝 𝐛𝐨𝐭𝐡 𝐋𝐮𝐜𝐢𝐟𝐞𝐫 𝐚𝐧𝐝 𝐀𝐡𝐫𝐢𝐦𝐚𝐧.

1. Por Lúcifer

Naquele momento, ele sentiu o que aquele ser estava tentando fazer na linguagem das visões — o que a Bíblia descreve com as palavras:  "Todos os reinos que você vê diante de si — reinos do mundo espiritual — podem ser seus, se você me reconhecer como o senhor deste mundo." Lucas 4:5-7

Se alguém está cheio de orgulho e arrogância e leva estes sentimentos para o mundo espiritual, pode possuir o reino deste mundo, de Lúcifer,  porque a arrogância submerge tudo o mais se tudo, exceto a arrogância, for deixado para trás. [...] Então ele reconheceu aquela figura como uma das que vira nos portões dos Essênios: Lúcifer! Portanto, ele soube que agora Lúcifer estava falando com ele e repeliu o ataque. Ele derrotou Lúcifer.

2. Por Ahriman e Lúcifer

Então, ele teve a impressão/sensação que dois seres vieram atacá-lo, o que é mais ou menos o que a Bíblia descreve. Eles lhe disseram “Mostre todo o seu destemor/coragem, sua força, mostre o que você pode fazer como homem através de atirar-se das alturas sem medo de se ferir.” Nesse caso, a consciência da força e da coragem deve ser despertada na alma humana, mas isto também pode torná-la sensualista. Duas figuras estavam diante dele. Como Jesus tivera a impressão de que eram Lúcifer e Ahriman que haviam fugido dos portais Essênios, agora tinha a impressão de que em uma delas estava o mesmo ser que o leproso encontrara e que se apresentara como a morte. Por causa dessas experiências, ele reconheceu Lúcifer e Ahriman. [...] Ele também repeliu esse ataque. Ele venceu ambos, Lúcifer e Ahriman.

3. By Ahriman Alone

Then Ahriman came again. A kind of temptation ensued. He said to Christ Jesus something similar to what the Bible describes: '𝐌𝐚𝐤𝐞 𝐭𝐡𝐞𝐬𝐞 𝐬𝐭𝐨𝐧𝐞𝐬 𝐢𝐧𝐭𝐨 𝐛𝐫𝐞𝐚𝐝 𝐭𝐨 𝐬𝐡𝐨𝐰 𝐲𝐨𝐮𝐫 𝐩𝐨𝐰𝐞𝐫.' But now Jesus could not give a complete answer to what Ahriman demanded. […] If Christ was to help earthly humanity in the right way, he had to allow Ahriman to act. 𝐀𝐡𝐫𝐢𝐦𝐚𝐧, 𝐭𝐡𝐞 𝐦𝐚𝐭𝐞𝐫𝐢𝐚𝐥, 𝐦𝐮𝐬𝐭 𝐛𝐞 𝐚𝐜𝐭𝐢𝐯𝐞 𝐮𝐧𝐭𝐢𝐥 𝐭𝐡𝐞 𝐞𝐧𝐝 𝐨𝐟 𝐭𝐡𝐞 𝐞𝐚𝐫𝐭𝐡'𝐬 𝐞𝐯𝐨𝐥𝐮𝐭𝐢𝐨𝐧. His work had to remain undefeated by Christ, not completely overcome. The Christ must accept the struggle with Ahriman until the end of earth evolution. Ahriman had to remain.

Steiner concludes:

We as humans can overcome the attacks of Lucifer and the attacks of Lucifer and Ahriman together. 𝐓𝐡𝐞 𝐬𝐭𝐫𝐮𝐠𝐠𝐥𝐞 𝐢𝐧 𝐭𝐡𝐞 𝐦𝐚𝐭𝐞𝐫𝐢𝐚𝐥 𝐨𝐮𝐭𝐞𝐫 𝐰𝐨𝐫𝐥𝐝 𝐦𝐮𝐬𝐭 𝐛𝐞 𝐟𝐨𝐮𝐠𝐡𝐭 𝐨𝐮𝐭 𝐮𝐧𝐭𝐢𝐥 𝐭𝐡𝐞 𝐞𝐧𝐝 𝐨𝐟 𝐭𝐡𝐞 𝐞𝐚𝐫𝐭𝐡'𝐬 𝐞𝐯𝐨𝐥𝐮𝐭𝐢𝐨𝐧. Therefore, Christ had to hold Ahriman in check, but allow him to stand alongside him. For this reason, Ahriman remained active during the three years that Christ worked in the body of Jesus of Nazareth, and he entered the soul of Judas and was decisive in the betrayal of Jesus. What happened through Judas is related to the temptation in the desert after the baptism in the Jordan.” 3

We too must continue to struggle against Ahrimanic forces until the end of earth’s evolution. Lent is an opportunity to practice and prepare for our own earthly challenges.

Fasting brings harmony between the universe and man.

Today, many people give up indulgences and fast to strengthen themselves again the worldly temptations of Lucifer and Ahriman. Traditionally, this is accomplished by eliminating sweets and other cravings or eliminating meals, possibly only having one meal per day. Indeed, Rudolf Steiner recommended fasting to counteract the destructive forces of the world.

The whole of waking life is a process destructive of the physical body. Illnesses are caused by excessive activity of the astral body. Eating to excess affords a stimulus to the astral body which re-acts in a disturbing way on the physical body. That is why fasting is laid down in certain religions. The effect of fasting is that the astral body, having greater quiet and less to do, partially detaches itself from the physical body. Its vibrations are modulated and communicate a regular rhythm to the etheric body. Rhythm is thus set going in the etheric body by means of fasting. Harmony is brought into life (etheric body) and form (physical body). In other words, harmony reigns between the universe and man.5

Powerful forces of evil work against human spiritual evolution. Mardi Gras or “Fat Tuesday” exemplifies this. People are tempted to gluttony, debauchery and drunkenness the day before the beginning of Lent and thereafter, at great cost, even for the "well intentioned".

Now all civilized people have reached that stage so that alcohol is an unnecessary evil today. Through its use one loses the ability to get along with others and to understand them. Alcohol is especially harmful for esoterics since its use changes all developed higher forces into forces of the personal ego, repeatedly locks it into itself, and tears the astral body apart through the opposing streams of the higher and lower I forces. The principle through which everyone can consciously attain his individualization was brought through the coming of Christ to the earth. That's why Christ Jesus says: I am the true vine.

By consuming alcohol one prepares a fertile soil for hosts of spiritual beings, just as a dirty room gets filled with flies.6

As the Lenten breviary verse above informs, we must now choose whether to sink further into the darkness of the material world or light the fire of the spirit within ourselves. We must either make ourselves into suitable raiments for the spirit or fall deeper into darkness. "The power of the senses must spiritually turn" to heal the sickness of the world and restore our heritage of eternity.

3. Somente por Ahriman

Então Ahriman retornou. Seguiu-se uma espécie de tentação. Ele disse a Cristo Jesus algo semelhante ao que a Bíblia descreve: “Torne estas pedras em pães para mostrar o seu poder”.  Mas agora Cristo não podia dar uma resposta completa ao que Ahriman demandava. [...] Se Cristo existia para ajudar a humanidade terrena na forma correta, ele teria que permitir ao Ahriman atuar. Ahriman, o material, deve estar ativo até o fim da evolução da Terra. Seu trabalho era permanecer não totalmente vencido por Cisto, não completamente superado. Cristo deve aceitar a batalha com Ahriman até o fim da evolução da Terra. Ahriman teve que permanecer.

Steiner conclui:

Nós, como humanos podemos superar os ataques de Lúcifer e os ataques em conjunto de Lúcifer e Ahriman. A batalha no mundo material externo deve ser lutada até o fim da evolução da Terra. Por esta razão, Cristo teve que manter Ahriman sob controle, mas permitir que ele permanecesse ao seu lado. Por essa razão, Ahriman permaneceu ativo durante os três anos em que Cristo atuou no corpo de Jesus de Nazaré, e entrou na alma de Judas, sendo decisivo na traição de Jesus. O que aconteceu por meio de Judas está relacionado à tentação no deserto após o batismo no Jordão.” 3

Nós também devemos continuar a lutar contra as forças de Ahriman até o fim da evolução da Terra. A Quaresma é uma oportunidade para praticar e nos preparar para nossos próprios desafios terrenos.

O jejum traz harmonia entre o universo e o homem.

Hoje, muitas pessoas renunciam às indulgências e jejuam para se fortalecer novamente contra as tentações do mundo de Lúcifer e Ahriman. Tradicionalmente, isso é feito eliminando doces e outros desejos ou eliminando refeições, possivelmente fazendo apenas uma refeição por dia. De fato, Rudolf Steiner recomendava o jejum para neutralizar as forças destrutivas do mundo.

Toda a vida desperta/acordada é um processo destrutivo para o corpo físico. As doenças são causadas pela atividade excessiva do corpo astral. Comer em excesso fornece um estímulo ao corpo astral, que reage de forma perturbadora no corpo físico. É por isso que o jejum é abandonado em certas religiões. O efeito do jejum é que o corpo astral, tendo mais calma e menos a fazer, se desprende parcialmente do corpo físico. Suas vibrações são moduladas e comunicam um ritmo regular ao corpo etérico. O ritmo é, portanto, estabelecido no corpo etérico por meio do jejum. A harmonia é trazida à vida (corpo etérico) e à forma (corpo físico). Em outras palavras, a harmonia reina entre o universo e o ser humano.5.

Poderosas forças do mal atuam contra a evolução espiritual do ser humano. O Carnaval ou "Terça-feira Gorda" exemplifica isso. As pessoas são tentadas à gula, à devassidão e à embriaguez no dia anterior ao início da Quaresma e posteriormente, com grande custo, mesmo para os "bem-intencionados". Atualmente, todas as pessoas civilizadas atingiram esse estágio, de modo que o álcool é um mal desnecessário hoje. Por meio de seu uso, perde-se a capacidade de conviver com os outros e de compreendê-los. O álcool é especialmente prejudicial para os esotéricos, uma vez que seu uso transforma todas as forças superiores desenvolvidas em forças do ego pessoal, aprisionando-o repetidamente em si mesmo e dilacerando o corpo astral por meio dos fluxos opostos das forças do Eu-Superior(Espírito) e inferior. O princípio pelo qual todos podem alcançar conscientemente sua individualização foi trazido pela vinda de Cristo à Terra. Esta é a razão de Cristo Jesus dizer: Eu sou a videira/vinho verdadeira(o).  Ao consumir álcool, prepara-se o solo fértil para multidões de seres espirituais, assim como um quarto sujo se enche de moscas.6.Como informa o versículo acima do breviário da Quaresma, devemos agora escolher entre afundar ainda mais na escuridão do mundo material ou acender o fogo do espírito dentro de nós.Devemos nos transformar adequadamente em vestes para o espírito ou cair ainda mais profundamente na escuridão. "O poder dos sentidos deve se tornar/voltar espiritualmente" para curar a doença do mundo e restaurar nossa herança da eternidade.

21 de fevereiro de 2026. The 40 days of Lent      https://rsarchive.org/

 

NOTAS:

1. Rudolf Steiner. Lectures and Courses on Christian Religious Work II. GA 343. Twenty-seventh Lecture. Dornach. 9 October 1921 p.m., Dornach

https://rsarchive.org/Lectures/GA343/English/SOL2024/19211009p01.html


2. Este cálculo dos 40 dias exclui os Domingos.


3. Rudolf Steiner. The Fifth Gospel Volume 2. GA 148. Lecture II. Cologne.18 December 1913.

https://rsarchive.org/Lectures/GA148/English/SCR2013/19131218p01.html

 

4. Rudolf Steiner. The Fifth Gospel. GA 148 Lecture V.6 October 1913, Oslo

https://rsarchive.org/Lectures/GA148/English/SCR2006/19131006p01.html

 

5. Rudolf Steiner. An Esoteric Cosmology. GA 94. 7 June 1906, XI. The Devachanic World (Heaven) I.  Paris.

https://rsarchive.org/Lectures/GA094/English/SGP1978/19060607p01.html

 

6.  Rudolf Steiner. Esoteric Lessons I. GA 266. Number 39. Stuttgart, 8-13-'08

03 março 2026

Alguns videos. Rudolf Steiner